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Notícias / Paraná Brasil proíbe bets após 5 anos sem regras, perdas de R$ 62,5 bi e vício entre adolescentes

segunda-feira, 28 setembro de 2026.

“Um grande alívio.” Foi assim que Kaio*, 42 anos, definiu a proibição das bets no Brasil na última sexta (25). Ele tenta recomeçar a vida depois de perder carro, casa e emprego por dívidas de jogo. Hoje mora sozinho em um dormitório no interior de Goiás, dormindo no chão. Com dívidas com agiotas, se afastou da família. Viciado há seis anos, começou este ano tratamento no Caps, com grupos terapêuticos, consultas e três remédios por dia.

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A proibição veio com a Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Lula na sexta (25). Ela revogou o capítulo 5 da Lei 13.756, de 2018, do governo Temer. Apesar de aprovadas em 2018, as bets só foram regulamentadas em dezembro de 2023 e operaram por cinco anos praticamente sem regras, como os avisos obrigatórios sobre os malefícios.

As perdas são bilionárias. De outubro de 2024 a março de 2026, as famílias perderam R$ 62,5 bilhões para as bets, média de R$ 4,7 bilhões por mês. O valor equivale a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias e considera transferências via Pix. No período, as bets movimentaram quase R$ 351 bi em Pix, segundo o Boletim Fiscal do Comsefaz.

A lei de regulamentação previa o bloqueio de usuários compulsivos, mas isso nunca ocorreu, segundo o advogado Júlio Leone. As empresas faziam o oposto: enviavam bônus e anúncios sem parar. Kaio confirma: “O celular não parava de trazer mensagens.”

O vício atingiu adolescentes. Um em cada cinco alunos (20,4%) dos anos finais do fundamental e médio já apostou online, segundo pesquisa da Equidade.info a pedido da Frente Parlamentar da Educação, com 1.912 estudantes de 191 escolas. As apostas começavam aos 11 anos, com 9,5% nessa faixa etária já tendo apostado.

Há risco de suicídio. Profissionais relatam desesperança, isolamento, aumento do uso de álcool e mudanças de comportamento. Falas sobre morte devem ser motivo de atenção e busca de ajuda, alerta Katia Branco. Pacientes ficam extremamente ansiosos pelos prejuízos financeiros, com ideação suicida nos casos mais graves.

Para o neurocirurgião Orlando Maia, a aposta vira parte da rotina por ser um mecanismo de recompensa, e o dependente muitas vezes não reconhece o problema sozinho, precisando da família. A psicóloga Claudia Feres, de um Caps do DF, diz que chegam pacientes após tentativas de autoextermínio, em um pedido de socorro desesperado.

A facilidade de acesso agravou o quadro. “É um cassino dentro do seu bolso”, disse Luiz Carlos*, 71 anos, do Jogadores Anônimos. “Graças a Deus eu não jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha época, tinha que sair de casa para jogar.”

Em agosto, com o aumento dos casos, o SUS ampliou os teleatendimentos para apostadores. Com a proibição, o Ministério da Saúde anunciou busca ativa de apostadores contumazes, com dados dos ministérios da Fazenda e da Segurança e da Receita Federal, oferecendo acompanhamento e tratamento, segundo o ministro Alexandre Padilha.